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Operação Marquês passa pelo Brasil

Conhecida como Operação Marquês, a ação do MP português resultou numa peça acusatória de 4 mil páginas (fora anexos de documentos, entrevistas etc. Escândalo passa por Vivo, Oi. Lula etc.

<b>Reprodução</b> Lula e Socrates
Reprodução Lula e Socrates
Por Mauro Lobo - Correspondente em Portugal
Publicado em 12/10/2017

O Ministério Público de Portugal apresentou denúncia contra o ex-primeiro-ministro José Sócrates e mais 27 pessoas, todos acusados de integrar um mirabolante esquema de transações financeiras heterodoxas, favorecimentos pessoais, tráfico de influência, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, entre outras capitulações penais.

Conhecida como Operação Marquês, a ação do MP português resultou numa peça acusatória de 4 mil páginas (fora anexos de documentos, entrevistas etc), e somente ao ex-governante é imputada a prática de 31 crimes. Segundo o MP, é a maior investigação criminal dessa natureza jamais realizada no país.

Até ser destrinchado esse novo apêndice da enciclopédia dos crimes modernos, não se terá pormenores das ligações entre a Operação Marquês e o Brasil, mas parte dos personagens envolvidos, a convergência de fatos ocorridos aqui e no mercado brasileiro, as relações pessoais dos personagens centrais da trama – tudo isso avaliza os indícios da interligação entre malfeitos em Portugal e bandalheiras no Brasil.
O caso da operadora OI remete inevitavelmente para três pessoas agora denunciadas: Zeinal Bava, ex-presidente da Portugal Telecomunicações (PT), Henrique Granadeiro, ex-presidente executivo da PT, e Ricardo Espírito Santo, ex-tudo em Portugal. Ligeiro recuo no tempo.
Líder no setor de telecomunicações em Portugal, a PT começou a desmilinguir quando a Telefônica de Espanha, sócia no mercado português, fez pressão e ganhou a parada de comprar os 24% da participação lusitana na Vivo brasileira. Sócrates era o primeiro-ministro do Gabinete do Partido Socialista, e reagiu com vigor à pretensão espanhola.
Invocou a aplicação da Golden Share para bloquear o negócio, mas a Telefônica não desistiu. Começava, então, uma batalha de mercado e de bastidores políticos. A oferta espanhola foi subindo, subindo, até que os acionistas portugueses não resistiram. Mas Sócrates bateu o pé, sempre escudado no peso do voto do Estado nacional.
Acontece que Bruxelas, que é onde tudo se decide, de verdade, numa união política e econômica como a Europeia, mandou o governo português acabar com essa forma antiquada de fazer negócios. A Telefônica ganhou o jogo e abocanhou os 24% que a PT tinha na Vivo.
Aturdido, o ex-primeiro-ministro se aconselhou com alguém da área e chamou para a briga a Telefonica, mas agora no mercado brasileiro. A idéia tinha tudo para dar errado, como de fato aconteceu. E mesmo assim, não se $abe como, seguiu adiante, com tambores e trombetas a ampliar a antecipada sensação de que aquilo era uma aventura. Mas se fosse uma aventura proveito$a?
Lula era o presidente, cheio de popularidade e disposto a conversar com o amigo Sócrates.
A fusão PT-OI poderia dar certo se as probabilidades de êxito de casamento de um jacaré com cobra-dágua se reduzissem a uma proporção adequada. A PT era uma empresa moderna, atualizada, inovadora desde sua criação. Gerida por Zeinal Bava, engenheiro de origem indiana, conquistava prêmios de eficiência a cada ano. Tinha uma gestão, até aquele episódio, imune a pequenezas do mundinho político predador.
A brasileira OI, ao contrário, nascera sob o símbolo do compadrio político, dos arranjos de naturera até regional das forças partidárias, no Brasil. É difícil fixar uma data, menos ainda o momento certo, da tentação casamenteira dessa dupla condenada ao malogro, mas fácil identificar a razão: a PT estava com dinheiro de sobra, no caixa, resultante da venda de sua posição na Vivo.
E quando entra dinheiro aos jorros as mentes escapam para plataformas inimagináveis, quase etéreas, e os homens costumam perder a razão. Os políticos, com maior frequência e amplitude.
A LISTA
Depois de José Sócrates, o nome mais expressivo da lista é o do ex-banqueiro Ricardo Espírito Santo, ex-tudo em Portugal. Dizem que manejava poderosas e poderosos com o estalar de dedos, e que sua influência na vida política nacional era quase um poder paralelo. Exageros e maledicências à parte, o grupo Espírito Santo era uma referência de finanças em Portugal desde 1920. Cresceu e solidificou-se, numa primeira etapa, nos anos de 1920, período de convulsões políticas e sociais que desaguaram na ditadura de Oliveira Salazar. Sob esse guarda-chuva se expandiria e ampliaria seus negócios.
Houve troca de comandos por morte e de natureza hierárquica familiar, até que chegou a vez de Ricardo Espírito Santo. O ex-banqueiro, hoje sob prisão domiciliar em sua mansão na praia do Guincho, em Cascais, tem ramificações antigas, no Brasil, onde se autoexilou após a Revolução dos Cravos, em 1974.
Seu envolvimento com a Portugal Telecomunicações emergiu como ruinosa para a empresa quando se descobriu que a PT comprara 900 milhões euros em títulos da holding grupo Espírito Santo, a Rio Forte. O papel não tinha nenhuma garantia, e o dinheiro evaporou no episódio da liquidação das atividades do banco e empresas coligadas, em agosto de 2014. Específicamente na Operação Marquês, o antigo banqueiro é acusado de 21 crimes.
Figuras menos conhecidas fora de Portugal, mas de peso na vida nacional em passado recente também estão acusadas pelo Ministério Público. Armando Vara é uma delas. Ex-ministro socialista e ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos (estatal, é o maior banco português), avalizou nessa condição concessão de empréstimos a empreendimentos fraudulentos.
A Operação Marquês, que agora chega ao estágio de denúncia formal, demorou 4 anos, 4 meses e 22 dias.